ST85 . História, cinema e televisão
Coordenação: Eduardo Victorio Morettin
O ST está disponível também no site do 27º simpósio
Apresentação: O objetivo do Seminário Temático é o de examinar o lugar ocupado hoje pelos meios audiovisuais (cinema e televisão) dentro da pesquisa histórica a partir, principalmente, de um eixo: a maneira pela qual a experiência do real é trabalhada na narrativa fílmica e televisiva. Este tema pode ter outros desdobramentos, como o estatuto do audiovisual como documento; o papel desempenhado por estes meios na construção de uma memória histórica; as diversas formas de representação do passado por eles empreendida; e as interfaces com outros campos das ciências humanas e das artes. Valoriza-se a discussão que toma as imagens como ponto de partida para a análise, método que evita o filme como ilustração de um saber histórico pré-definido.
No que diz respeito ao eixo temático, cabem algumas considerações. A questão do "real" como matéria da narrativa ficcional e do documentário envolve diretamente o exame das relações entre história e cinema/televisão. Em que pese sua definição sempre precária, o real está na esfera do vivido, do efetivamente acontecido como processo social e histórico verificável, através de "indícios" documentais, vestígios materiais e relatos de memória. Se é plausível afirmar que todo filme manipula os dados de sua história, no sentido narrativo do termo, o documentário e a ficção tangenciam o real a partir de uma lógica invertida. O primeiro, mesmo quando quer minimizar as mediações com o real filmado, não escapa às regras de exposição que constituem sua especificidade fílmica, como a entrevista, a locução, o filmar fora do estúdio, etc. O segundo, por sua vez, não deixa de friccionar os eventos e as estruturas da realidade no qual se insere ou representa. Assim, mais do que discutir a singularidade do documentário ou da ficção como formas audiovisuais mais ou menos próximas do real, nos propomos a analisar as tensões advindas desta relação na construção das narrativas fílmicas e televisivas, que nos remetem a uma série de questões pontuais que demarcam esta relação: o uso de imagens de arquivo; a ficção histórica naturalizada; o lugar do evento na representação fílmica; a ilusão da objetividade no documentário e o efeito de verdade na ficção, dentre outras abordagens possíveis diante do universo de autores, produtos audiovisuais e temas.
Justificativa: Os campos fronteiriços entre o documentário e a ficção vem sendo questionados nos estudos sobre cinema e audiovisual e discutidos pela produção audiovisual contemporânea, que exercita os limites da representação em um processo de reflexão que abarca o próprio cinema ao instaurar um curto no circuito documentário/ficção.
O destaque conferido ao caráter de mediação presente em um filme, que realça seu estatuto discursivo, não tem como implicação direta aceitar a idéia de que nos encontramos sempre no âmbito das representações, distantes de qualquer vínculo com o real. O filme é arma de combate, como nos lembra Marc Ferro, que dialoga sempre com o seu presente, mesmo quando se propõe retratar a sociedade romana na época de Spartacus ou o futuro dominado pela incorporação de outros planetas subjugados dentro de um novo tipo de imperialismo, como no caso de Avatar (2009), de James Cameron. Não se trata aqui, portanto, de fazer as aproximações realizadas por Robert Rosenstone, para quem a história escrita tem uma dimensão ficcional tal como a expressa nos filmes históricos. Concordamos com ele quando nos diz que: “a) nem as pessoas nem as nações vivem ‘relatos’ históricos; as narrações, ou seja, tramas coerentes com um início e um final, são elaboradas por historiadores numa tentativa de dar sentido ao passado; b) os relatos dos historiadores são, de fato, ‘ficções narrativas’; a história escrita é uma recriação do passado, não o passado em si; c) a realidade histórica, no discurso narrativo, está condicionada pelas convenções de gênero e de ponto de vista (como ocorre com os romances de ficção) que o historiador tem escolhido – irônico, trágico, heróico ou romântico -; d) a linguagem nunca é asséptica, em conseqüência não pode refletir o passado tal como ele ocorreu; ao contrário, a linguagem cria, estrutura a história e a imbui de um significado” (ROSENSTONE, Robert. História em Imagens, História em Palavras. In: O Olho da História. (5): 112, 1998). De fato, a história traz uma dimensão discursiva, recorrendo a procedimentos específicos de constituição, como nos mostra as classificações propostas por Hayden White (Meta-história. São Paulo, Edusp, 1995, e Trópicos do discurso: ensaios sobre a crítica da cultura. São Paulo, EDUSP, 1994). Porém, devemos nos lembrar que a História não incide sobre o mesmo campo da Literatura. Pierre Vidal-Naquet enfrentou a questão ao discutir o revisionismo histórico a propósito do Shoah, experiência limite para aqueles dedicados ao tema da representação. Em seu livro Os Assassinos da História, Vidal-Naquet sentencia: “se o discurso histórico não se ligasse por quantos intermediários quisermos ao que chamaremos, na ausência de um termo melhor, de real, continuaríamos no discurso, mas num discurso que deixaria de ser histórico” (Os assassinos da memória. Campinas, SP, Papirus, 1988, p. 170).
Nossa intenção, portanto, é a de aprofundar os estudos sobre história, cinema e televisão para além da análise representacional ou ideológica em si mesma, percebendo as tensões entre o evento, as relações sociais e a construção da narrativa fílmica e televisiva, como epicentro da análise histórica. Obviamente, não se trata de cotejar a narrativa audiovisual com o ‘acontecido’ para ver quem é o perdedor (perspectiva presente em muitos dos textos da coletânea ‘A História vai ao Cinema’, organizados por Jorge Ferreira e Mariza Soares em 2001), mas analisar os diálogos entre ambos, tomando como "real", no plano historiográfico, os "indícios" documentais e as narrativas não-ficcionais que envolvem eventos, personagens e processos localizados em determinados tempos e espaços.
Enfim, essas são as questões gerais que nortearão, ao longo do seminário, as análises dos filmes e dos programas de televisão.
Sessões:
Uma cena pernambucana: História e Cinema no Recife de 1923 a 1945
Arthur Gustavo Lira do Nascimento
Centro de Estudos Cinematográficos de Juiz de Fora: por um cinema de arte
Alessandra Souza Melett Brum
O nacional no cinema: a revista Fundamentos e as críticas às primeiras produções da Companhia Cinematográfica Vera Cruz no início dos anos 1950
Igor David dos Santos
Os comunistas e o cinema nacional-popular dos anos 1950
Marcos Francisco Napolitano de Eugênio
Cinema e Colonialismo: a Exposição Colonial Internacional (Vincennes, 1931)
Eduardo Victorio Morettin
As representações históricas e os sentidos das comemorações do IV Centenário de São Paulo em Metrópole de Anchieta (1952), de B. J. Duarte
Marcia Juliana Santos
“A representação cinematográfica juvenil em Juventude transviada e Acossado: uma análise comparada”
Carlos Vinicius Silva dos Santos
Lincoln e a construção da monumentalidade no cinema: Griffith, Ford e Spielberg
Fabio Luciano Francener Pinheiro
Memória, história e ficção televisiva: a representação histórica na minissérie “Holocausto”
Edson Pedro da Silva
“S7VEN e as imagens do mal”; leituras das de arte no filme de David Fincher de 1995.
Luiz Carlos Sereza
Amaral Netto, o Repórter – o Brasil na televisão, de 1968 a 1983.
Katia Iracema Krause
A memória histórica da ditadura militar brasileira mediada pela telenovela "Amor e Revolução"
Dayse Maciel de Araujo
"Reis e ratos" e a narrativa do golpe militar de 1964
Mônica Almeida Kornis
DISCURSIVIDADE E HISTORICIDADE NOS DOCUMENTÁRIOS DE ALANIS OBOMSAWIN
Luiz Alexandre Pinheiro Kosteczka
O documentário contemporâneo (re)inventa a cidade: uma análise de Sábado à Noite (2007)
Rodrigo Capistrano Camurça
Os contornos do Brasil em suas noticias da semana.
Rodrigo Archangelo
MAIORIA ABSOLUTA (L. HIRSZMAN, 1964) E A OPINIÃO PÚBLICA (A. JABOR, 1967): UMA ANÁLISE HISTÓRICA DO DOCUMENTÁRIO ENGAJADO E AS PERSPECTIVAS DE BRASIL EM FACE DA TRANSIÇÃO POLÍTICA (1961-1967).
Isadora Remundini
Estética e política no ciclo latino-americano de Helena Solberg
Ana Maria Veiga
O discurso histórico em Parahyba mulher macho (1983): um filme da transição democrática brasileira.
Alciene Cavalcante de Oliveira
Macunaíma, o filme: Joaquim Pedro de Andrade entre o Modernismo e o Tropicalismo
Wolney Vianna Malafaia
Constelação de figuras entre vistas: sobre uma crítica moderna diante dos impasses do cinema brasileiro
Pedro Plaza Pinto
O Chile de Joris Ivens comentado por Chris Marker: análise de À Valparaiso (1963)
Carolina Amaral de Aguiar
Revolução desde a montanha e revolução desde a planície: duas representações cinematográficas da Unidade Popular
Ignacio Del Valle Davila
Vivências do regime civil-militar uruguaio sob as lentes de Mario Handler: o documentário Decile a Mario que no vuelva (2007)
Mariana Martins Villaça
Documentários de filhos de ex-guerrilheiros: intimidade e outras dimensões.
Fernando Seliprandy
Sobre História e Videogames: Possibilidades de análise teórico-metodológica
Robson Scarassati Bello
O ST está disponível também no site do 27º simpósio
Apresentação: O objetivo do Seminário Temático é o de examinar o lugar ocupado hoje pelos meios audiovisuais (cinema e televisão) dentro da pesquisa histórica a partir, principalmente, de um eixo: a maneira pela qual a experiência do real é trabalhada na narrativa fílmica e televisiva. Este tema pode ter outros desdobramentos, como o estatuto do audiovisual como documento; o papel desempenhado por estes meios na construção de uma memória histórica; as diversas formas de representação do passado por eles empreendida; e as interfaces com outros campos das ciências humanas e das artes. Valoriza-se a discussão que toma as imagens como ponto de partida para a análise, método que evita o filme como ilustração de um saber histórico pré-definido.
No que diz respeito ao eixo temático, cabem algumas considerações. A questão do "real" como matéria da narrativa ficcional e do documentário envolve diretamente o exame das relações entre história e cinema/televisão. Em que pese sua definição sempre precária, o real está na esfera do vivido, do efetivamente acontecido como processo social e histórico verificável, através de "indícios" documentais, vestígios materiais e relatos de memória. Se é plausível afirmar que todo filme manipula os dados de sua história, no sentido narrativo do termo, o documentário e a ficção tangenciam o real a partir de uma lógica invertida. O primeiro, mesmo quando quer minimizar as mediações com o real filmado, não escapa às regras de exposição que constituem sua especificidade fílmica, como a entrevista, a locução, o filmar fora do estúdio, etc. O segundo, por sua vez, não deixa de friccionar os eventos e as estruturas da realidade no qual se insere ou representa. Assim, mais do que discutir a singularidade do documentário ou da ficção como formas audiovisuais mais ou menos próximas do real, nos propomos a analisar as tensões advindas desta relação na construção das narrativas fílmicas e televisivas, que nos remetem a uma série de questões pontuais que demarcam esta relação: o uso de imagens de arquivo; a ficção histórica naturalizada; o lugar do evento na representação fílmica; a ilusão da objetividade no documentário e o efeito de verdade na ficção, dentre outras abordagens possíveis diante do universo de autores, produtos audiovisuais e temas.
Justificativa: Os campos fronteiriços entre o documentário e a ficção vem sendo questionados nos estudos sobre cinema e audiovisual e discutidos pela produção audiovisual contemporânea, que exercita os limites da representação em um processo de reflexão que abarca o próprio cinema ao instaurar um curto no circuito documentário/ficção.
O destaque conferido ao caráter de mediação presente em um filme, que realça seu estatuto discursivo, não tem como implicação direta aceitar a idéia de que nos encontramos sempre no âmbito das representações, distantes de qualquer vínculo com o real. O filme é arma de combate, como nos lembra Marc Ferro, que dialoga sempre com o seu presente, mesmo quando se propõe retratar a sociedade romana na época de Spartacus ou o futuro dominado pela incorporação de outros planetas subjugados dentro de um novo tipo de imperialismo, como no caso de Avatar (2009), de James Cameron. Não se trata aqui, portanto, de fazer as aproximações realizadas por Robert Rosenstone, para quem a história escrita tem uma dimensão ficcional tal como a expressa nos filmes históricos. Concordamos com ele quando nos diz que: “a) nem as pessoas nem as nações vivem ‘relatos’ históricos; as narrações, ou seja, tramas coerentes com um início e um final, são elaboradas por historiadores numa tentativa de dar sentido ao passado; b) os relatos dos historiadores são, de fato, ‘ficções narrativas’; a história escrita é uma recriação do passado, não o passado em si; c) a realidade histórica, no discurso narrativo, está condicionada pelas convenções de gênero e de ponto de vista (como ocorre com os romances de ficção) que o historiador tem escolhido – irônico, trágico, heróico ou romântico -; d) a linguagem nunca é asséptica, em conseqüência não pode refletir o passado tal como ele ocorreu; ao contrário, a linguagem cria, estrutura a história e a imbui de um significado” (ROSENSTONE, Robert. História em Imagens, História em Palavras. In: O Olho da História. (5): 112, 1998). De fato, a história traz uma dimensão discursiva, recorrendo a procedimentos específicos de constituição, como nos mostra as classificações propostas por Hayden White (Meta-história. São Paulo, Edusp, 1995, e Trópicos do discurso: ensaios sobre a crítica da cultura. São Paulo, EDUSP, 1994). Porém, devemos nos lembrar que a História não incide sobre o mesmo campo da Literatura. Pierre Vidal-Naquet enfrentou a questão ao discutir o revisionismo histórico a propósito do Shoah, experiência limite para aqueles dedicados ao tema da representação. Em seu livro Os Assassinos da História, Vidal-Naquet sentencia: “se o discurso histórico não se ligasse por quantos intermediários quisermos ao que chamaremos, na ausência de um termo melhor, de real, continuaríamos no discurso, mas num discurso que deixaria de ser histórico” (Os assassinos da memória. Campinas, SP, Papirus, 1988, p. 170).
Nossa intenção, portanto, é a de aprofundar os estudos sobre história, cinema e televisão para além da análise representacional ou ideológica em si mesma, percebendo as tensões entre o evento, as relações sociais e a construção da narrativa fílmica e televisiva, como epicentro da análise histórica. Obviamente, não se trata de cotejar a narrativa audiovisual com o ‘acontecido’ para ver quem é o perdedor (perspectiva presente em muitos dos textos da coletânea ‘A História vai ao Cinema’, organizados por Jorge Ferreira e Mariza Soares em 2001), mas analisar os diálogos entre ambos, tomando como "real", no plano historiográfico, os "indícios" documentais e as narrativas não-ficcionais que envolvem eventos, personagens e processos localizados em determinados tempos e espaços.
Enfim, essas são as questões gerais que nortearão, ao longo do seminário, as análises dos filmes e dos programas de televisão.
Sessões:
Uma cena pernambucana: História e Cinema no Recife de 1923 a 1945
Arthur Gustavo Lira do Nascimento
Centro de Estudos Cinematográficos de Juiz de Fora: por um cinema de arte
Alessandra Souza Melett Brum
O nacional no cinema: a revista Fundamentos e as críticas às primeiras produções da Companhia Cinematográfica Vera Cruz no início dos anos 1950
Igor David dos Santos
Os comunistas e o cinema nacional-popular dos anos 1950
Marcos Francisco Napolitano de Eugênio
Cinema e Colonialismo: a Exposição Colonial Internacional (Vincennes, 1931)
Eduardo Victorio Morettin
As representações históricas e os sentidos das comemorações do IV Centenário de São Paulo em Metrópole de Anchieta (1952), de B. J. Duarte
Marcia Juliana Santos
“A representação cinematográfica juvenil em Juventude transviada e Acossado: uma análise comparada”
Carlos Vinicius Silva dos Santos
Lincoln e a construção da monumentalidade no cinema: Griffith, Ford e Spielberg
Fabio Luciano Francener Pinheiro
Memória, história e ficção televisiva: a representação histórica na minissérie “Holocausto”
Edson Pedro da Silva
“S7VEN e as imagens do mal”; leituras das de arte no filme de David Fincher de 1995.
Luiz Carlos Sereza
Amaral Netto, o Repórter – o Brasil na televisão, de 1968 a 1983.
Katia Iracema Krause
A memória histórica da ditadura militar brasileira mediada pela telenovela "Amor e Revolução"
Dayse Maciel de Araujo
"Reis e ratos" e a narrativa do golpe militar de 1964
Mônica Almeida Kornis
DISCURSIVIDADE E HISTORICIDADE NOS DOCUMENTÁRIOS DE ALANIS OBOMSAWIN
Luiz Alexandre Pinheiro Kosteczka
O documentário contemporâneo (re)inventa a cidade: uma análise de Sábado à Noite (2007)
Rodrigo Capistrano Camurça
Os contornos do Brasil em suas noticias da semana.
Rodrigo Archangelo
MAIORIA ABSOLUTA (L. HIRSZMAN, 1964) E A OPINIÃO PÚBLICA (A. JABOR, 1967): UMA ANÁLISE HISTÓRICA DO DOCUMENTÁRIO ENGAJADO E AS PERSPECTIVAS DE BRASIL EM FACE DA TRANSIÇÃO POLÍTICA (1961-1967).
Isadora Remundini
Estética e política no ciclo latino-americano de Helena Solberg
Ana Maria Veiga
O discurso histórico em Parahyba mulher macho (1983): um filme da transição democrática brasileira.
Alciene Cavalcante de Oliveira
Macunaíma, o filme: Joaquim Pedro de Andrade entre o Modernismo e o Tropicalismo
Wolney Vianna Malafaia
Constelação de figuras entre vistas: sobre uma crítica moderna diante dos impasses do cinema brasileiro
Pedro Plaza Pinto
O Chile de Joris Ivens comentado por Chris Marker: análise de À Valparaiso (1963)
Carolina Amaral de Aguiar
Revolução desde a montanha e revolução desde a planície: duas representações cinematográficas da Unidade Popular
Ignacio Del Valle Davila
Vivências do regime civil-militar uruguaio sob as lentes de Mario Handler: o documentário Decile a Mario que no vuelva (2007)
Mariana Martins Villaça
Documentários de filhos de ex-guerrilheiros: intimidade e outras dimensões.
Fernando Seliprandy
Sobre História e Videogames: Possibilidades de análise teórico-metodológica
Robson Scarassati Bello